Transmissões oficiais de TV 3.0 serão inauguradas no primeiro dia da Copa do Mundo
São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília vão poder sintonizar a nova fase da TV digital aberta em 4K; fabricante de conversores compatíveis iniciou pré-venda
A Copa do Mundo FIFA 2026 começa em 11 de junho e será disputada nos Estados Unidos, Canadá e México. Aqui no Brasil, o torneio entrará para a história, já que servirá de vitrine para a estreia operacional da TV 3.0, também chamada de DTV+.
A TV Globo anunciou que exibirá em 4K UHD todos os jogos da Seleção Brasileira, metade das partidas da competição e a grande final. Haverá sinal DTV+ da emissora em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.
Até o momento, a Globo é a única emissora a confirmar o uso da DTV+ com transmissão em 4K durante a Copa de 2026. A parceria SBT/N Sports anunciou uma cobertura multiplataforma e vem associando a operação a recursos de alta qualidade de imagem, mas ainda não confirmou publicamente uma transmissão terrestre em TV 3.0 com sinal 4K. A Record já realiza testes com a nova tecnologia, mas também não anunciou transmissão da Copa pela DTV+.
A fase de implantação já permitirá a oferta de recursos digitais integrados ao sinal da TV aberta, como informações adicionais sobre jogos, escalação das seleções e outros conteúdos relacionados à competição. A experiência, no entanto, dependerá da aquisição de equipamentos compatíveis com o novo padrão, o que deve restringir o alcance da novidade neste primeiro momento.
Primeira vitrine comercial da nova TV aberta
A escolha da Copa como ponto de partida reforça a estratégia de apresentar a TV 3.0 em um evento de grande audiência. A tecnologia não substituirá imediatamente a TV digital atual, mas abrirá uma fase de convivência entre o sistema convencional e a nova plataforma.
A DTV+ combina transmissão aberta por antena com recursos digitais associados à internet. A proposta é transformar o canal aberto em uma plataforma híbrida, capaz de oferecer programação linear, conteúdos complementares, aplicações interativas, serviços sob demanda e novas possibilidades de personalização.
O novo padrão promete imagem em 4K UHD (2160p) e sistema HDR, som imersivo, interatividade e integração entre broadcast e broadband — ou seja, entre a transmissão terrestre e a conexão à internet.
No caso da TV Globo, a implantação será gradual em outras praças. Até o momento, não há um cronograma público detalhado para expansão da DTV+.
Cobertura multiplataforma da TV Globo terá 1.000 horas ao vivo
Além da estreia da TV 3.0, a Globo prepara uma ampla operação de cobertura para a Copa do Mundo. A emissora informou que serão cerca de 1.000 horas de transmissão ao vivo, com mais de 500 profissionais envolvidos, incluindo 120 enviados especiais aos países-sede.
No ambiente de TV por assinatura, o Grupo Globo também prepara operação em 4K pelo seu canal pago de esportes Sportv 4K. Já o Globoplay terá investimento em baixa latência nos canais ao vivo, com o objetivo de reduzir o atraso entre a transmissão digital e os acontecimentos em campo.
O site ge.globo terá notícias em tempo real, melhores momentos, gols e sinal gratuito das partidas exibidas pela TV Globo e pela GE TV, no YouTube. A cobertura também contará com o chamado “Estádio da Globo”, estúdio virtual instalado nos Estúdios Globo, com uso de realidade aumentada, inteligência artificial e painéis de alta definição.
Lançamento ainda será restrito
Apesar do peso simbólico da estreia, a chegada da TV 3.0 ao público será limitada nesta primeira fase. Como a tecnologia exige receptores ou televisores compatíveis, a maior parte dos telespectadores continuará acompanhando a Copa pelo sinal digital tradicional, pelo Sportv, Globoplay ou pelas demais plataformas digitais.
Ainda assim, o lançamento durante o Mundial deve funcionar como uma demonstração prática do novo ciclo da televisão aberta brasileira. A DTV+ é tratada pelo setor como a evolução do sistema digital implantado no país a partir de 2007, o ISDB-Tb.
Para São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, a Copa de 2026 deve marcar o primeiro contato do público com uma nova camada de serviços da TV aberta. Para o restante do país, a estreia nas três localidades servirá como vitrine do que poderá ser expandido nos anos seguintes, à medida que emissoras, fabricantes de equipamentos e órgãos reguladores avancem na implantação do novo padrão.
O receptor para assistir à DTV+
Para o público, a principal mudança inicial será a necessidade de um conversor externo. Como os primeiros televisores com DTV+ integrada ainda não estarão disponíveis durante a Copa, a recepção da nova TV aberta dependerá de set-top boxes compatíveis.
Uma das características previstas para o receptor DTV+ é a antena do sistema MIMO integrada ao próprio gabinete do set-top box. A solução foi desenvolvida para melhorar a recepção em ambientes internos e reduzir, em muitos casos, a dependência de antenas externas.
Ainda assim, a qualidade do sinal poderá variar conforme a localização do receptor, a distância em relação à estação transmissora, a presença de obstáculos urbanos e as condições de cobertura em cada cidade. Por isso, o equipamento também deverá contar com entrada para antena externa, garantindo maior flexibilidade em diferentes cenários de recepção.
No caso dos televisores com DTV+ embutida, as principais fabricantes ainda não divulgaram cronogramas comerciais claros.
Já o kit de recepção do sinal DTV+ foi desenvolvido pelo Fórum SBTVD em parceria com empresas associadas. A Vivensis aparece como uma das fabricantes envolvidas no desenvolvimento do primeiro protótipo funcional, enquanto a Mirakulo participa da solução tecnológica do middleware.
A produção dos conversores está ocorrendo em Manaus, com aproveitamento dos incentivos fiscais da Zona Franca. A estratégia busca reduzir custos, estimular a cadeia nacional de equipamentos e acelerar a disponibilidade dos aparelhos no mercado.
Na prática, o set-top box será o elo entre o televisor atual e a nova geração da TV digital. Ele receberá o sinal DTV+, processará áudio, vídeo, dados e aplicações interativas, e enviará a imagem ao aparelho de TV. A conexão à internet vai ser usada para liberar recursos complementares, mas não substituirá a transmissão aberta terrestre.
Mesmo os televisores sem resolução 4K poderão acessar a DTV+ por meio de um conversor externo compatível. Nesses casos, o equipamento fará a recepção e o processamento do novo sinal, enquanto a imagem será adaptada à resolução máxima suportada pelo televisor. Assim, uma TV Full HD, por exemplo, poderá receber uma transmissão originalmente em 4K, mas exibirá o conteúdo em 1080p.
Os recursos de interatividade também poderão funcionar em televisores Full HD, desde que o conversor esteja conectado à internet e que a aplicação da emissora seja compatível com esse tipo de uso.
DTV+ na prática
A DTV+ funcionará como uma combinação entre TV aberta por antena e uma experiência digital semelhante à das Smart TVs. A programação chega pela antena e a internet entra como camada complementar, usada para geração de menus, navegação em aplicativos, disponibilização de informações extras e viabilização de serviços interativos.
Na experiência da TV 3.0, a navegação tende a ganhar uma camada visual baseada em aplicativos das emissoras, sem eliminar necessariamente a lógica da recepção aberta pelo sinal terrestre. O telespectador poderá acessar uma interface inicial do sistema (foto), selecionar o ícone da emissora desejada e entrar no ambiente digital associado ao canal.
Ao abrir o aplicativo da emissora, o usuário terá acesso à programação ao vivo. A diferença é que a transmissão terá recursos extras, acionados pelos menus, como informações complementares, publicidade segmentada, estatísticas, enquetes, câmeras alternativas, áudio alternativo, conteúdos sob demanda e outros recursos.
O controle remoto seguirá como principal meio de navegação, com uma experiência próxima à de conversores digitais e plataformas de streaming.
Sinal experimental da Globo DTV+ já está no ar em São Paulo
A TV Globo iniciou, recentemente, os testes do sinal de sua estação de TV 3.0/DTV+ em São Paulo. A emissora paulistana foi autorizada para operar na frequência central de 277 MHz, com largura de faixa de 6 MHz. O sistema utiliza dois transmissores alemães da Rohde & Schwarz, modelo THV9evo MIMO, com potência de 21 kW cada.
A estrutura de transmissão foi instalada na própria torre da TV Globo, na região da Avenida Paulista, em São Paulo, com sistema irradiante posicionado no ponto mais alto, acima das antenas usadas pela emissora na TV digital convencional.
Antes da estação da Globo, São Paulo já contava com transmissões-piloto ligadas ao desenvolvimento da nova geração da TV aberta, a partir de estruturas instaladas nas torres da TV Record, na Avenida Paulista, e do SBT, no Sumaré.
Apesar da ativação do sinal da TV Globo, a recepção das transmissões experimentais ainda está restrita a testes técnicos, pois depende dos equipamentos compatíveis com o novo padrão. Nesta fase, a operação serve principalmente para ajustes de transmissão, validação de cobertura e desenvolvimento dos recursos que deverão ser apresentados ao público durante o Mundial.
A tecnologia da TV 3.0
A implantação da DTV+ está prevista no Decreto nº 12.595, de agosto de 2025, que instituiu oficialmente a TV 3.0 no país. A partir de estudos técnicos, o Brasil desenvolveu seu próprio modelo de TV 3.0 com base em tecnologias associadas ao padrão ATSC 3.0, utilizado nos Estados Unidos. O novo modelo brasileiro combina transmissão aberta, aplicações digitais e conexão à internet, mantendo o acesso gratuito ao sinal de radiodifusão.
A TV 3.0 muda não apenas a qualidade da imagem e dos recursos interativos da televisão aberta. Ela também traz uma alteração importante na forma como o sinal chega ao receptor: o uso de transmissão com múltiplas antenas e polarização dupla do sinal, tecnologia conhecida como MIMO.
Na prática, isso significa que o sinal é transmitido por dois “caminhos” ao mesmo tempo, usando as polarizações horizontal e vertical, que são as orientações da onda eletromagnética emitidas pela antena. Na TV digital atual, o sistema costuma trabalhar com uma polarização predominante, conforme o planejamento de cada estação. Na TV 3.0, a polarização dupla permite transmitir o dobro da taxa de bits, tornando a transmissão mais eficiente e mais robusta, necessitando de menos intensidade de sinal para formar a imagem.
O Fórum SBTVD recomenda, para a camada física da TV 3.0, a adoção do padrão ATSC 3.0 combinado com recursos como MIMO e LDM (Layered Division Multiplexing - Multiplexação por Divisão em Camadas), justamente para ampliar a eficiência espectral e energética da transmissão.
O MIMO — sigla para multiple-input and multiple-output — usa mais de uma antena para fazer a transmissão e precisa de mais de uma antena para a recepção. No caso da TV 3.0, isso permite trabalhar com sinais em polarizações distintas. Em vez de depender de um único feixe principal, o sistema pode aproveitar melhor os diferentes percursos que o sinal faz até chegar à casa do telespectador.
Esse ponto é especialmente importante para a recepção interna. Dentro de apartamentos, casas e escritórios, o sinal de TV não chega de forma “limpa” como em campo aberto. Ele sofre reflexões em prédios, paredes, janelas, móveis e estruturas metálicas. Na TV digital convencional, esses obstáculos podem reduzir a intensidade do sinal ou provocar falhas de recepção. Com o MIMO, parte dessas reflexões pode ser aproveitada pelo receptor, que passa a ter mais informações para reconstruir o sinal de forma estável.
A principal vantagem, portanto, não está apenas em aumentar a potência da emissora, mas em usar melhor o canal de transmissão. A polarização dupla permite maior capacidade de dados, melhor estabilidade e maior tolerância às condições reais de recepção nas grandes cidades. Em reportagem sobre a preparação da TV 3.0 no Brasil, a revista Pesquisa Fapesp destacou que a adoção de antenas com polarização horizontal e vertical permite elevar a taxa de bits transmitida, favorecendo qualidade de sinal, estabilidade e resolução de imagem.
Para o público, a consequência esperada é uma experiência mais parecida com a de outros equipamentos sem fio modernos: instalar o conversor ou televisor compatível, posicionar a antena interna e receber o sinal aberto com menos dependência de antenas externas.
Também por isso, os primeiros conversores e kits de recepção da DTV+ vêm sendo apresentados com antena interna integrada ou embarcada. A preocupação do setor é fazer com que a recepção da nova TV aberta seja simples para o usuário comum, sem transformar a instalação em um processo técnico complexo.
A polarização na TV 3.0 deixa de ser apenas uma característica de engenharia da antena e passa a fazer parte da estratégia central do novo sistema. Com transmissão MIMO, polarização dupla e receptores preparados para captar esses sinais, a DTV+ busca entregar uma TV aberta mais robusta, mais eficiente e mais adaptada ao consumo dentro de casa — justamente onde boa parte do público assiste televisão.
Por Maurício Viel, jornalista, escritor e historiador do rádio e da TV.



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