Especial: FM estendido completa cinco anos no Brasil entre avanços, rearranjos e desafios de recepção
Faixa inaugurada em maio de 2021 ampliou o dial brasileiro, viabilizou parte da migração AM-FM e se tornou peça estratégica na reorganização do rádio em grandes mercados
A faixa de FM estendida (FMe) completa cinco anos de operação no Brasil no início deste mês de maio como uma das mudanças mais relevantes do rádio brasileiro, desde a consolidação da migração das emissoras AM para o FM. Inaugurada oficialmente em 7 de maio de 2021, a FMe abriu espaço entre 76,1 MHz e 87,3 MHz, reaproveitando o espectro antes ocupado pelos canais 5 e 6 VHF da televisão analógica. A medida criou uma nova área de expansão para a radiodifusão sonora, especialmente em mercados onde o FM convencional já estava saturado.
A estreia ocorreu com um grupo pioneiro de emissoras em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Recife, Curitiba e Porto Alegre. Na capital paulista, três operações chamaram atenção logo no início: a Rádio Capital, em 77,5 MHz, a Cultura Brasil, em 77,9 MHz, e também a estatal EBC, com a Rádio Nacional, em 87,1 MHz — excepcionalmente uma emissora não oriunda do processo de migração.
A Solução de Engenharia
A criação da faixa estendida foi uma resposta técnica a um problema concreto: a falta de canais livres no FM convencional (87,5 MHz e 107,9 MHz) nas grandes regiões metropolitanas, para que as estações de Ondas Médias (AM) pudessem ganhar uma frequência em uma faixa que proporcionasse melhor qualidade de áudio e atendesse às novas exigências do mercado — embora a percepção de parte do público sobre essa "exigência" ainda seja um ponto de debate.
Com o processo de migração das rádios AM para o FM regulamentado pelo Decreto nº 8.139/2013, emissoras de diversas regiões do país puderam ocupar frequências na faixa convencional do FM. Contudo, em polos como São Paulo, Rio, Curitiba e Porto Alegre, acomodar todas as migrantes entre 88,1 e 107,9 MHz era matematicamente inviável.
Nesse contexto, o FMe foi concebido como uma solução de engenharia e política pública. A Anatel sinalizou que a destinação da faixa de 76,1 MHz a 87,3 MHz às rádios FM aumentaria a capacidade do espectro, permitindo que o serviço passasse de 33 para até 60 canais. Na prática, isso significava criar uma segunda camada do dial.
A migração das emissoras de AM para o FM trouxe avanços importantes, mas também reacendeu a discussão sobre a perda do grande alcance das ondas médias. A mudança beneficiou especialmente as emissoras urbanas, com melhor qualidade de áudio e maior presença junto a públicos de maior renda. Por outro lado, pode ter produzido uma espécie de “apagão” radiofônico em regiões do interior do Brasil, sobretudo em municípios pequenos e áreas rurais, onde apenas o sinal em AM chegava com regularidade. Para milhões de brasileiros, o rádio segue sendo um meio essencial de informação, cultura, prestação de serviço e comunicação em situações de emergência.
O Balanço de Cinco Anos
Atualmente, cinco anos depois, o balanço é ambíguo. Do ponto de vista técnico, a faixa estendida cumpriu papel decisivo. Sem ela, parte importante das migrantes em grandes mercados simplesmente não teria onde operar. Em São Paulo, por exemplo, o FMe permitiu a entrada ou permanência de marcas tradicionais como Capital, Cultura Brasil, Jovem Pan/Classic Pan, Bandeirantes e Record.
O crescimento nacional também é expressivo. Levantamento do portal tudoradio.com indicou, em março de 2026, que o Brasil já havia superado 1.237 emissoras originadas do AM ativas no FMe/FM. O mesmo levantamento mostrou São Paulo como o estado com maior número de migrantes em operação, com 200 estações, seguido por Paraná, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Quando o recorte é apenas o FM estendido, a concentração paulista é ainda mais evidente. Em novembro de 2025, o Brasil já havia passado de 50 emissoras operando abaixo de 87,5 MHz, com São Paulo reunindo mais da metade desse total. Na ocasião, eram 33 emissoras em FMe no território paulista.
O Desafio do RJ e o Laboratório de SP
O Rio de Janeiro apresenta um caso peculiar de resistência. Na Região Metropolitana, apenas três emissoras ocupam o FMe. Grupos de rádio fluminenses têm demonstrado uma tendência clara: sempre que surge uma brecha técnica no FM convencional, abandonam a faixa estendida. O caso mais emblemático é o da Rádio Manchete, que chegou a operar em 76,9 MHz em 2025, mas migrou recentemente para os 96,1 MHz.
Já a Grande São Paulo tornou-se o principal laboratório do país. A região combina saturação do dial, alto custo de arrendamento e um grande volume de emissoras históricas. Entretanto, o "gargalo do receptor" persiste. Apesar de uma portaria de 2017 obrigar que novos aparelhos saiam de fábrica com suporte ao FMe, a renovação do parque tecnológico é lenta. Carros antigos, rádios de pilha e smartphones de baixo custo continuam "surdos" para frequências abaixo de 87,5 MHz.
Emissoras no FMe ganharam qualidade técnica, mas agora lutam para alcançar a mesma audiência do dial tradicional devido à barreira física dos aparelhos.
É o que também ocorre com a Rádio Bandeirantes em São Paulo: migrante da AM 840, ela operou em 86,3 MHz, mas agora se prepara para se fixar em 107,3 MHz, em um complexo rearranjo envolvendo a Fundação Brasil 2000.
Momento de Reorganizar
O quinto aniversário da faixa estendida chega em um momento de reorganização. A movimentação da Bandeirantes (SP) e Manchete (RJ) mostra que o FMe, em alguns casos, atua como etapa de transição, solução de acomodação ou ativo estratégico dentro de rearranjos mais complexos.
A saída de uma marca forte da faixa estendida para o FM convencional não significa necessariamente o fracasso do FMe, mas evidencia uma hierarquia de mercado: o FM convencional ainda tem maior alcance de receptores, maior familiaridade do público e maior valor comercial.
Ao mesmo tempo, outras emissoras seguem apostando na consolidação dentro da faixa estendida. A Rádio Record, uma das marcas mais antigas do rádio paulistano, iniciou suas transmissões em 77,1 MHz em 1º de dezembro de 2025, levando ao FMe uma operação tradicionalmente associada ao AM 1000 KHz. A chegada da Record reforçou a percepção de que a faixa estendida deixou de ser apenas um experimento técnico e passou a fazer parte da paisagem real do dial metropolitano. Outro destaque do FMe em São Paulo é a Classic Pan, que vem obtendo índices interessantes de audiência em sua programação musical.
Na prática, a faixa estendida transformou a escuta de rádio em São Paulo em um ambiente mais complexo. O antigo dial AM, que chegou a reunir quase três dezenas de emissoras na Região Metropolitana, vem encolhendo rapidamente. Permanecem no ar sete operações em Ondas Médias, enquanto parte relevante das marcas históricas já migrou para o FMe ou para o FM convencional. O FMe, nesse processo, funciona como uma ponte entre dois tempos: preserva a presença terrestre de emissoras tradicionais, mas exige adaptação técnica, comunicação com o público e paciência comercial.
A análise desses cinco anos permite apontar três conclusões. A primeira é que a faixa estendida foi indispensável para viabilizar a migração em mercados congestionados. Sem ela, o processo de migração das emissoras de AM seria inviável em grandes centros ou dependeria de soluções ainda mais complexas de redução de potência, remanejamento e troca de canais.
A segunda é que a política pública avançou mais rapidamente que o hábito de consumo. A faixa foi criada, regulamentada e ocupada, mas o receptor compatível já deveria ter chegado de maneira homogênea ao cotidiano da população. O rádio, diferentemente da televisão digital, não teve uma campanha nacional de massa capaz de explicar ao ouvinte comum que existe uma nova parte do dial antes dos 87,5 MHz.
A terceira análise é que o FMe continuará relevante, mas de forma desigual em relação ao FM tradicional. Em cidades médias e em mercados menos saturados, a tendência é que muitas migrantes ainda encontrem espaço no FM convencional. Nas grandes regiões metropolitanas, porém, a faixa estendida continuará sendo necessária, seja como destino definitivo de emissoras, seja como área de rearranjo técnico, seja como alternativa para operações públicas, educativas, religiosas, jornalísticas e regionais.
A Concorrência do Streaming e os Próximos Desafios
As emissoras de rádio em geral também enfrentam o desafio de disputar a atenção do público com plataformas de streaming, que oferecem consumo sob demanda, personalização e acesso imediato a músicas, podcasts e conteúdos variados. Nesse cenário, o rádio precisa reforçar seus diferenciais, como a proximidade com o ouvinte, a curadoria ao vivo, a prestação de serviço, a informação local e a capacidade de criar vínculos em tempo real, elementos que o streaming nem sempre consegue reproduzir com a mesma força.
Cinco anos depois de sua implantação, o FM estendido ainda não se tornou plenamente popular e comercialmente viável, mas já se tornou estrutural. Ele ampliou o dial, manteve vivas marcas que poderiam perder relevância se ficassem no AM e abriu novas possibilidades para melhor qualidade de som. O desafio dos próximos anos será transformar essa presença técnica em hábito de escuta. Para isso, será preciso mais do que autorização regulatória: será necessário viabilizar receptor compatível, ter ampla campanha de comunicação, programação relevante e uma percepção clara, por parte do ouvinte, de que “a primeira do dial” não fica mais em 88,1 MHz.
Maurício Viel é jornalista, escritor e historiador do rádio e da TV.

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