Eldorado se despede dos 107,3 MHz e Bandeirantes inicia nova fase no FM
Transição também marcou a saída da Rádio Bandeirantes dos 86,3 MHz, frequência que passou a abrigar uma nova programação educativa
A noite desta quinta-feira (14) marcou uma das transições mais simbólicas do rádio paulistano recente. Depois de um dia inteiro dedicado à despedida, a Rádio Eldorado encerrou sua trajetória nos 107,3 MHz com uma programação especial, tom memorialístico e uma sequência final carregada de celebração, emoção, gratidão e esperança. À meia-noite do dia 15, a frequência passou a transmitir a Rádio Bandeirantes, que iniciou oficialmente sua nova fase no FM convencional de São Paulo.
A despedida da Eldorado foi construída ao longo de todo o dia, com homenagens, lembranças e manifestações de afeto de ouvintes, comunicadores e profissionais ligados à história da emissora. Um top 100 com as melhores da Eldorado foi transmitido durante a maior parte da programação.
Às 17h, uma nota oficial foi levada ao ar, informando que o Grupo Estado, proprietário da Eldorado, recuou em sua decisão de extingui-la e agora está em busca de um patrocínio máster para poder levá-la a outra frequência, por meio de arrendamento. A notícia deu esperança aos apresentadores.
Já na fase final da programação especial, por volta das 23h45, a rádio colocou no ar um material institucional contando sua trajetória e ressaltando a importância da marca para a cultura, o jornalismo e a música no dial paulistano. Na sequência, ouviu-se uma prolongada salva de palmas da equipe que estava no estúdio, ao vivo. O gesto antecedeu a música que foi escolhida para fechar o ciclo da Eldorado nos 107,3 MHz: “Moving On”, de Ryuichi Sakamoto, música de 1994 que representa justamente a ideia de partida, encerramento de ciclo e tentativa de seguir adiante.
Ao término da música, por volta das 23h57, entrou o silêncio em 107,3. E assim permaneceu no sinal de FM e no streaming da emissora. A ausência de áudio, nos minutos finais antes da virada, acabou funcionando como uma espécie de epílogo involuntário para uma rádio que marcou gerações.
para foto logo após emissora encerrar sua jornada em 107,3 MHz.
Bandeirantes estreia nos 107,3 MHz
À meia-noite em ponto, a Rádio Bandeirantes entrou no ar em 107,3 MHz (veja aqui) com sua programação sincronizada com a rede. No estúdio principal da emissora, uma equipe de apresentadores, que tinha acabado de irradiar a partida entre Corinthians x Barra-SC, pela Copa do Brasil, estava preparada para celebrar a nova fase da emissora, explicar a nova sintonia ao público, reforçar o significado estratégico da estreia no FM convencional e, claro, conectar a mudança com as coberturas da Copa do Mundo e das Eleições 2026.
Os apresentadores trataram a migração para os 107,3 MHz como um ganho real para o ouvinte, destacando um suposto sinal mais forte. A mensagem, porém, soa como um enquadramento positivo de uma mudança mais complexa: a antiga FM 90,9 MHz, usada por décadas pela emissora, tem um alcance muito maior que os atuais 107,3 MHz, a exemplo de toda a Baixada Santista, que pode ficar sem a emissora no dial. Neste caso, chega agora a notícia de que a Bandeirantes deve arrendar os 106,7 MHz do litoral, visando evitar um apagão na região, ainda que ela tenha menos potência que a FM 90,9.
Na verdade, o avanço real com a mudança para os 107,3 está menos na cobertura e mais na estratégia empresarial, já que a Bandeirantes deixa uma frequência arrendada e passa a ocupar um canal próprio no FM convencional paulistano.
A chegada aos 107,3 MHz representa, sim, uma grande conquista para a Bandeirantes em São Paulo. A emissora passa a ocupar uma posição mais favorável no dial tradicional de FM, depois de operar em 86,3 MHz, na faixa estendida, e manter por décadas sua presença em 90,9 MHz por meio de contrato oneroso de arrendamento com a Vip FM.
Durante a transmissão inaugural da frequência, a equipe também destacou o início da contagem regressiva para os 90 anos da Rádio Bandeirantes, a serem comemorados em maio de 2027. A mudança de frequência, portanto, foi apresentada não apenas como uma alteração técnica, mas como parte de um reposicionamento histórico da marca.
Nos 86,3 MHz, uma estreia discreta
Se os holofotes estavam voltados para o fim da Eldorado e para a entrada da Bandeirantes na nova frequência, o mesmo não aconteceu nos 86,3 MHz. A partir da meia-noite, o canal deixou de ser ocupado pela Rádio Bandeirantes e passou a abrigar a nova emissora educativa e cultural da Fundação Brasil 2000, a mesma que retransmitiu a Rádio Eldorado nos últimos anos, e, anteriormente, sustentou a trajetória da roqueira Brasil 2000 FM.
A operação dos 86,3 MHz passa a representar, na prática, o novo destino da concessão educativa historicamente ligada à Fundação Brasil 2000/Grupo Gamaro. A mudança ocorre dentro do acordo que permitiu a reorganização das frequências envolvendo a fundação e o Grupo Bandeirantes.
Por operar agora na faixa estendida de FM — ainda limitada por restrições de acesso decorrentes da baixa oferta de receptores compatíveis no mercado —, a 86,3 não recebeu um projeto artístico competitivo ou com ares de rádio comercial, como ocorreu nas últimas três décadas da concessão. Muitos ouvintes, naturalmente, se perguntam por que a Eldorado não pôde permanecer neste canal...
Além da falta de divulgação sobre a nova emissora, há outros indicativos de que a operação é um "tapa-buraco" ou uma ocupação emergencial do canal.
Com certeza não é um projeto artístico plenamente estruturado. Não há perfis nas redes sociais, grade de programação divulgada, site ou mesmo uma marca definida. A identificação no ar é simplesmente "86,3 FM", acompanhada de algumas vinhetas e do slogan “86,3 FM - Aqui tem cultura e educação”.
Entre as vinhetas, inclusive, há uma menção direta à saída da Rádio Bandeirantes daquela frequência: “A Bandeirantes mudou para 107,3”.
O que se ouve na rádio é uma seleção de programas produzidos por diferentes fontes, em uma tentativa de sustentar o papel educativo e cultural que a emissora deve cumprir.
Depois de aproximadamente três minutos de silêncio após a meia-noite, entrou no ar a grade que literalmente substituiu a Rádio Eldorado.
O primeiro conteúdo transmitido foi o programa “Caminhos da Criação”, produzido pelo Instituto Arte na Escola (IAE), que explora o processo criativo de artistas contemporâneos brasileiros.
Durante a madrugada desta sexta-feira (15), a 86,3 FM levou ao ar alguns programas de arquivo da Rádio Bandeirantes, entre eles, “Do Bom e do Melhor”, apresentado por Danilo Gobatto, e um documentário sobre a história das copas.
A presença de conteúdo de arquivo da Bandeirantes na nova programação sugere que o grupo homônimo segue tendo papel central na operação da frequência, ao menos nesta fase inicial. Assim, a 86,3 FM nasce como projeto educativo, ainda que timidamente.
Uma madrugada, três movimentos
A mudança encerra uma longa etapa para a Eldorado no FM paulistano e abre uma nova configuração no rádio de São Paulo. Para o ouvinte, a transição teve dois sentidos simultâneos: de um lado, a perda de uma marca associada à curadoria musical, à cultura e a uma escuta mais sofisticada; de outro, o fortalecimento da Bandeirantes em uma frequência de maior apelo no dial convencional.
O silêncio que tomou conta dos 107,3 MHz nos minutos finais da Eldorado contrastou com a entrada organizada e celebrativa da Bandeirantes à meia-noite. Em poucos minutos, a frequência mudou de identidade, linguagem e propósito. Foi uma troca técnica, mas também afetiva: a emissora se despediu com aplausos, música e muita esperança no ar. A outra entrou em clima de muita festa, anunciando uma nova fase e mirando seu aniversário de 90 anos.
Nos 86,3 MHz, a virada também foi significativa. A saída da Bandeirantes abriu espaço para um projeto educativo que, ao menos em tese, resgata a vocação cultural da concessão. Mas a estreia discreta, sem marca consolidada, sem grade pública e com conteúdo de arquivo da própria Bandeirantes, indica que essa nova fase ainda nasce em construção. Assim, a madrugada de 15 de maio reorganizou três histórias ao mesmo tempo: o fim da Eldorado nos 107,3 MHz, a consolidação da Bandeirantes no FM convencional e o início da 86,3 FM como nova emissora voltada à cultura e à educação.
Por Maurício Viel, jornalista, escritor e historiador do rádio e da TV.


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