Especial: Emissoras estrangeiras e de alguns estados ganham espaço no esvaziado dial AM de São Paulo
Estações do Paraguai, Argentina, PR, RJ, MG e GO vêm sendo captadas com facilidade na região
A propagação de emissoras de Amplitude Modulada (AM) é um fenômeno que transcende limites geográficos. Durante a noite — período de maior estabilidade ionosférica — torna-se comum a recepção de sinais a longas distâncias nas faixas de Ondas Médias (OM), Tropicais (OT) e Curtas (OC).
O alcance dessas emissoras pode variar entre regional (Classe B) e nacional (Classe A). Até pouco tempo, também havia a Classe C, destinada a estações locais, que tiveram que mudar para Classe B.
As emissoras de Ondas Médias com cobertura nacional operam, em geral, com transmissores de 50 kW, 100 kW — ou mais —, permitindo alcance de centenas de quilômetros. Apesar de atualmente poucas operarem com potência máxima, em razão dos altos custos, essas estações historicamente marcaram presença em regiões distantes de seus pontos de origem, reforçando o caráter multicultural do rádio.
Na capital paulista, a recepção de emissoras do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Brasília é registrada há décadas. Nos últimos meses, no entanto, o cenário se intensificou: sinais até então pouco comuns passaram a ser captados com boa intensidade, incluindo de emissoras estrangeiras, especialmente argentinas e paraguaias.
Para o público brasileiro que acompanha transmissões de rádio, especialmente radioescutas, profissionais e outros entusiastas do espectro, a “invasão” dessas emissoras — no melhor sentido — transforma o dial em um mosaico cultural. Em um momento de retração comercial das Ondas Médias em diversos mercados, a recepção internacional espontânea evidencia a dimensão técnica e cultural do meio. Futebol argentino, noticiários paraguaios e programas musicais surgem entre as estações locais, recriando a atmosfera clássica do rádio internacional.
Esvaziamento do AM brasileiro favorece recepção internacional
O aumento na recepção de emissoras estrangeiras no dial AM em diversas cidades do Brasil não é apenas resultado de condições de propagação favoráveis. Há também um fator estrutural: a redução progressiva do número de estações em operação no país.
Nos últimos anos, o processo de migração do AM para o FM e o encerramento definitivo de várias outorgas provocaram um efeito perceptível no espectro. Com menos transmissores ativos — especialmente à noite — o nível geral de interferência diminui, abrindo “janelas” no dial que antes estavam ocupadas por emissoras migrantes.
Esse cenário cria condições ideais para a recepção de emissoras de longa distância. Os sinais dos transmissores de alta potência principalmente localizados na Argentina e Paraguai passam a chegar com maior clareza, já que há menos competição por frequência e menor ruído de fundo no espectro.
Na prática, o fenômeno representa uma mudança no ambiente radioelétrico brasileiro. A faixa de Ondas Médias, que por décadas foi densamente ocupada, passa a apresentar trechos mais limpos — permitindo que o caráter internacional da faixa volte a se manifestar com mais intensidade.
Na Região Metropolitana de São Paulo, por exemplo, o espaço deixado pela Rádio Canção Nova, em 780 kHz, passou a ser ocupado pela Rádio 1º de Marzo, de Assunção, no Paraguai. Com o recente desligamento da Rádio Record em 1000 kHz, outra emissora paraguaia também ganha destaque no dial paulistano: a Rádio Mil, igualmente de Assunção, com transmissões de futebol e programação musical focada em sucessos dos anos 1980 no período noturno.
Da mesma forma, quando a frequência de 920 kHz for desocupada em Cotia (SP), a histórica Rádio Nacional del Paraguay deverá passar a ser captada com regularidade na capital paulista.
Ao mesmo tempo, emissoras de outros estados têm chegado com boa intensidade em São Paulo, a exemplo da Super Rede Boa Vontade de Rádio (do Rio de Janeiro) e da Rádio Nacional (de Brasília).
Para os radioescutas e entusiastas, trata-se de uma nova fase do dial, marcada por menos saturação local e maior diversidade de sinais captados.
Emissoras de Ondas Médias Captadas na Grande SP
O blog São Paulo Broadcast preparou uma listagem para auxiliar na identificação de emissoras distantes no dial AM da Grande São Paulo. Destacando que a recepção é possível somente à noite, depende de fatores climáticos e tende a ser melhor em receptores modernos de alta sensibilidade — que possuam o chip TEF-6686 por exemplo. As recepções são ainda melhores em ambientes com baixo ruído eletromagnético.
Emissoras Locais
- 560 kHz - A Guardiã da Notícia (temporariamente fora do ar) (Santa Isabel/Itaquaquecetuba)
- 700 kHz - Nossa Rádio (São Paulo/São Caetano do Sul)
- 730 kHz - Rádio Cidade (Jundiaí)
- 740 kHz - Rádio Trianon (Santo André/São Paulo)
- 920 kHz - Rádio 920 AM (Cotia)
- 1040 kHz - Rádio Capital (São Paulo/Diadema)
- 1070 kHz - Rádio Metropolitana (Mogi das Cruzes)
- 1200 kHz - Rádio Cultura Brasil (São Paulo)
- 1230 kHz - Rádio Atual (São Paulo)
- 1300 kHz - Rádio Universo/Deus é Amor (São Bernardo do Campo/São Paulo)
- 1490 kHz - Rádio Imaculada (Mauá/São Bernardo do Campo)
- 1570 kHz - Rádio ABC (Santo André)
- 1600 kHz - Rádio 9 de Julho (São Paulo)
Emissoras de Outros Estados
- 580 kHz - Rádio Relógio (Rio de Janeiro/RJ)
- 610 kHz - Rádio Itatiaia (Belo Horizonte/MG)
- 760 kHz - Rádio Manchete (Rio de Janeiro/RJ)
- 770 kHz - Rádio Cidade (Cambé/PR)
- 800 kHz - Rádio MEC (Rio de Janeiro/RJ)
- 880 kHz - Rádio Inconfidência (Belo Horizonte/MG)
- 940 kHz - Super Rede Boa Vontade (Rio de Janeiro/RJ)
- 980 kHz - Rádio Nacional (Brasília/DF)
- 1130 kHz - Rádio Nacional (Rio de Janeiro/RJ)
- 1210 kHz - Rádio Deus é Amor (Curitiba/PR)
- 1270 kHz - Rádio Brasil Central (Goiânia/GO)
- 1290 kHz - Rádio Brasil Sul (Londrina/PR)
- 1400 kHz - Rádio Rio de Janeiro (Rio de Janeiro/RJ)
- 1540 kHz - Rádio Novo Milênio/Deus é Amor (Sertãozinho/SP)
Emissoras Estrangeiras
- 780 kHz - Rádio 1° de Marzo (Assunção - Paraguai)
- 870 kHz - Rádio Nacional (Buenos Aires - Argentina)
- 900 kHz - Rádio LT7 (Corrientes - Argentina)
- 970 kHz - Rádio Universo (Assunção - Paraguai)
- 1000 kHz - Rádio Mil (Assunção - Paraguai)
- 1020 kHz - Rádio Ñandutí (Assunção - Paraguai)
- 1080 kHz - Rádio Monumental (Assunção - Paraguai)
- 1350 kHz - Rádio Buenos Aires (Buenos Aires - Argentina)
Entre os casos de emissoras nacionais com boa recepção no dial da Região Metropolitana de São Paulo, destacamos as características de algumas delas:
580 kHz - Rádio Relógio (São Gonçalo/RJ, 50 kW*). Emissora da Igreja Internacional da Graça de Deus, com programação quase inteiramente religiosa (evangélica), com inserções pontuais de jornalismo e prestação de serviço.
610 kHz - Rádio Itatiaia (Belo Horizonte/MG, 100 kW*). Centrada em notícias, debates, prestação de serviço e forte cobertura de futebol e esportes, com boletins informativos ao longo do dia. Foi fundada em 1952 e se tornou a mais tradicional rádio mineira. Desde 2021, pertence ao empresário Rubens Menin, fundador da CNN Brasil.
760 kHz - Rádio Manchete (Rio de Janeiro/RJ, 100 kW*). Perfil popular com informação e entretenimento. Combina noticiários, esportes (especialmente futebol), prestação de serviços e blocos musicais em formato variado. Emissora anteriormente pertencia ao Grupo Bloch (Rádio e TV Manchete), mas hoje é controlada pela família de Pedro Jack Kapeller, ex-sócio do mesmo grupo. A emissora já migrou para o FM e logo deverá encerrar as operações em AM.
800 kHz - Rádio MEC (Rio de Janeiro/RJ, 100 kW*). Emissora pública, mantida pelo governo federal, via EBC - Empresa Brasil de Comunicação. Sua programação tem predomínio de música de concerto, instrumental, MPB e produções culturais. Há programas dedicados à educação, artes, literatura e difusão cultural. Foi fundada como Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, em 1923, pelos cientistas Edgar Roquette Pinto e Henrique Morize — a segunda emissora de rádio a entrar em operação no Brasil. Foi incorporada ao governo brasileiro em 1936, vinculada ao Ministério da Educação e Saúde (MEC).
880 kHz - Rádio Inconfidência (Belo Horizonte/MG, 100 kW*). Rádio pública de conteúdo informativo-cultural, com forte presença de música nacional e serviços à população. É mantida pela Empresa Mineira de Comunicação (EMC), do Governo do Estado de Minas Gerais.
940 kHz - Super Rede Boa Vontade (Rio de Janeiro/RJ, 100 kW*). Programação baseada em mensagens espirituais e conteúdos voltados à reflexão religiosa e valores humanistas. É uma emissora própria da Legião da Boa Vontade (LBV). Considerada uma das emissoras brasileiras de OM com maior alcance. Há planos para migrar para o FM.
980 kHz - Rádio Nacional de Brasília (Brasília/DF, 50 kW*). Programação variada com jornalismo, música, esportes e conteúdos culturais, seguindo a linha de comunicação pública da EBC, estatal federal de mídia pública. É possível que esta emissora não migre para o FM, mantendo-se no ar em OM.
1130 kHz - Rádio Nacional do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro/RJ, 100 kW*). Programação variada com jornalismo, música, esportes e conteúdos culturais, seguindo a linha de comunicação pública da EBC. É possível que esta emissora não migre para o FM, mantendo-se no ar em OM. A Rádio Nacional do Rio de Janeiro é uma das emissoras mais emblemáticas da história do rádio no Brasil. Protagonista na consolidação do meio como comunicação de massa desde a década de 1930, a estação estabeleceu padrões de produção artística e jornalística, revelou grandes nomes da cultura e deixou um legado duradouro que a mantém como referência na memória radiofônica nacional.
1210 KHz - Rádio Deus é Amor (Curitiba/PR, 25 kW*). Emissora religiosa, ligada à Igreja Pentescostal Deus é Amor.
1270 kHz - Rádio Brasil Central (Goiânia/GO, 50 kW*). A rádio opera como uma emissora popular de perfil sertanejo, complementada por jornalismo e esportes. Pertence ao governo do estado de Goiás.
1290 kHz - Rádio Brasil Sul (Londrina/PR, 25 kW*). Tradicional emissora paranaense, tem perfil informativo-esportivo, com apoio musical sertanejo e programação popular regional.
1400 kHz - Rádio Rio de Janeiro (Rio de Janeiro/RJ, 100 kW*). Perfil religioso, espírita. Grade composta por estudos, mensagens e programas doutrinários, além de boletins e conteúdos espirituais. É operada pela Fundação Rádio Rio de Janeiro.
1540 kHz - Rádio Novo Milênio (Sertãozinho/SP, 1 kW*). Emissora da região de Ribeirão Preto opera com baixa potência, mas obtém bom alcance noturno por ser a última da região a operar em 1540 kHz. Ela é afiliada à Rádio Deus é Amor, da Igreja Pentescostal Deus é Amor.
Em geral, essas emissoras operam com potências elevadas e, em alguns casos, utilizam sistemas irradiantes otimizados para cobertura nacional, o que favorece a chegada do sinal à capital paulista após o pôr do sol.
O resultado é um dial noturno de Ondas Médias bastante dinâmico, no qual convivem sinais locais, nacionais e internacionais — mantendo viva a característica histórica do AM como um meio de alcance continental.
Dexismo
Para tratar desta nova fase de recepção em São Paulo, de emissoras OM distantes, o blog São Paulo Broadcast conversou com Denis Zoqbi, o jornalista especializado que, há décadas, se dedica à pesquisa e ao “dexismo”.
A prática de captação de emissoras distantes é conhecida como DX — abreviação telegráfica para "distância". Essa prática é apreciada por radioescutas, chamados de "dexistas". “DX” também é uma abreviação do serviço de radioamador para definir uma estação desconhecida.
A tradição das emissoras AM nos países vizinhos
A Argentina, o Uruguai e o Paraguai têm estruturas de comunicação muito similares às do Brasil. Na Argentina tem havido redução importante na potência das estações. Segundo o especialista Denis Zoqbi, "o serviço de rádio em Ondas Médias consome muita energia elétrica e problemas com a falta de liquidez financeira estão reduzindo o número de estações argentinas recebidas no Sul e Sudeste do Brasil".
Sobre a grande quantidade de emissoras paraguaias operando na faixa de Ondas Médias, Zoqbi explica que o país é grande parte camponês e as estações estão bastante distribuídas por todo o território. "Não são estações muito potentes, mas muitos sinais chegam facilmente ao Brasil”.
Já as emissoras uruguaias, embora potentes, não são bem captadas no Brasil pois têm seus sinais direcionados para dentro do continente. "Os argentinos no distrito de Missiones, por exemplo, escutam estações uruguaias com muito mais facilidade que os paranaenses e paulistas”, explica Zoqbi.
O jornalista informa que não existem movimentos na Argentina e Paraguai para promover o desligamento das estações de Ondas Médias. Entretanto, segundo ele, existem conversas entre radiodifusores sobre os desafios para sustentar tantas estações com menos recursos financeiros.
“Este cenário é residual da transformação que presenciamos na atualidade. Estamos vivenciando a digitalização de diversos formatos, a compactação de serviços no streaming e uma reavaliação de valores que qualificam ou não os serviços. Esta tendência é mundial diante do avanço de tecnologias mais ‘baratas’ ou imediatas", avalia o jornalista.
O futuro do AM no Brasil
Questionado sobre a utilização futura da faixa de Ondas Médias no Brasil, Denis Zoqbi aponta que a Anatel e o Ministério das Comunicações não se entenderam sobre esse assunto.
"A diretiva inicial, inclusive especulada por grupos de classe como a Associação das Emissoras Brasileiras de Rádio e Televisão (Abert), era formatar um plano de comunicação no Brasil tal como é nos Estados Unidos. Muitas estações regionais de Ondas Médias — de baixa ou média potência — são distribuídas entre os estados da federação como estações locais e/ou regionais. Entretanto, isso acabou não acontecendo na prática aqui no Brasil".
Zoqbi alerta que, com o desligamento das AMs, o Brasil está criando grandes zonas de silêncio radiofônico, onde, na verdade, deveriam chegar sinais de rádio em tempo integral. “Milhares de localidades ribeirinhas e rurais estão sendo isoladas e nenhuma tecnologia da informação está sendo implantada em substituição do rádio AM. Isso é grave para um país continental como o Brasil”, disse Zoqbi.
"Eu penso que o governo federal deveria avaliar a implantação de uma estrutura mínima regional do serviço de rádio na faixa de Ondas Médias. Não é que o FM não seja um serviço mais ou menos importante, mas a onda de rádio em FM é muito menos eficiente e cobre uma região muito menor do que estações de média e grande potências em AM. Em uma catástrofe ou calamidade de grandes proporções, um sinal de AM pode atingir lugares onde o FM jamais alcançaria", aponta Zoqbi.
Nordeste, MS e ES
Fato curioso sobre a radioescuta em São Paulo é que, com receptores comuns, não é possível captar emissoras de Ondas Médias do Nordeste brasileiro, nem mesmo dos estados do Espírito Santo e Mato Grosso do Sul. Zoqbi relembra que, há 20 anos, emissoras sul-mato-grossenses eram bem recebidas em território paulista.
“As grandes estações migraram para o FM e o estado acabou ‘silenciado’ por este processo. No fim do dia, era muito comum a Rádio Clube de Dourados disputar a frequência de AM 720 kHz com a Rádio Guaíba, de Porto Alegre”, relembra.
Estação em São Paulo capta sinais de AM de todo o continente
Denis Zoqbi é proprietário de uma estação de monitoramento de radiofrequências, instalada na região da Represa de Guarapiranga, na Zona Sul de São Paulo. Apaixonado por rádio desde a infância, ele afirma ter “descoberto o mundo” por meio de um receptor de Ondas Curtas.
“O fascínio pelo rádio transformou meu hobby em profissão. Acabei convivendo com nomes importantes do meio, como o saudoso Zé Béttio [Record] e Miguel Dias [Jovem Pan, CBN e Globo]. Estudei eletrônica e telecomunicações e, envolvido com o radioamadorismo, me tornei um caçador de estações difíceis — um dexista”.
A estação monitora sinais desde Ondas Longas (LW — faixa de frequências abaixo das Ondas Médias/MW) até a recepção de satélites.
Zoqbi relata que sua captação mais relevante, ao longo de mais de 30 anos de experiência, ocorreu no inverno de 2021, quando recebeu o sinal da Rádio ABC, de Adelaide, na Austrália. "Mantenho receptores portáteis, alguns de uso doméstico e outros mais dedicados, como o Icom R8500 e o JRC-525, ambos japoneses e voltados à recepção de alta performance”, disse.
Para dar suporte à atividade, o jornalista construiu uma antena externa para recepção na faixa de Ondas Médias, considerada a maior do hemisfério sul. “Eu a batizei de ‘Super Loop AM’. Ela tem 4 metros de altura e quase 15 metros de área. É com ela que recebo emissoras de diversos pontos do país e do exterior”.
Zoqbi também atua como monitor brasileiro de Ondas Médias para o site internacional de radioescutas mwlist.org.
Produtor de conteúdo para rádio e televisão há quase 30 anos, ele também é jornalista e colaborador de agências internacionais, com atuação nas áreas de tecnologia e ciências espaciais.
“O hobby do dexismo acabou aprimorando meu trabalho, e acabei ficando conhecido nos bastidores do rádio por ter sido correspondente da antiga Rádio Moscou e da Rádio Suíça, hoje representada pelo site Swissinfo”, conclui.
Por Maurício Viel. Jornalista, escritor e historiador do rádio e da TV.


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