Rádio Record encerra operações em AM 1000 KHz

Torre de transmissão da Rádio Record AM, na região da Represa de Guarapiranga.

Emissora saiu do ar neste domingo (1º) e passa a transmitir exclusivamente em FM 77,1 MHz

O primeiro dia de março de 2026 vai entrar para a história do rádio de São Paulo e do Brasil. Nesta data foram definitivamente encerradas as operações da tradicional Rádio Record AM 1000 KHz.

O monitoramento do blog São Paulo Broadcast detectou o sinal da AM 1000 KHz por volta das 11h deste domingo, mas ele já não estava mais no ar após as 14h, quando outro monitoramento foi feito. A emissora chegou a divulgar que ficaria no ar até o final de fevereiro, contudo, o momento exato do "switch off" dos 1000 KHz não foi divulgado previamente.

Após 97 anos no ar, a Rádio Record agora opera exclusivamente na frequência de 77,1 MHz da faixa estendida de FM. Os ouvintes continuam com a opção de ouvir pela internet.

O desligamento é o passo final do processo de migração do AM para o FM, iniciado pela Record em 1º de dezembro de 2025, quando seu sinal foi ativado em FM, podendo ser captado em toda a Região Metropolitana de São Paulo, além de algumas cidades do interior e do litoral paulista.

Na frequência de 1000 KHz, durante o período noturno, está sendo possível sintonizar a Rádio Mil, de Assunção, Paraguai, caso haja boas condições de recepção.

Potência e Tecnologia na Av. Paulista

Para operar na faixa de FM, a Record investiu pesado em infraestrutura. A transmissão parte da histórica torre do Grupo Record na Avenida Paulista — uma das mais emblemáticas da capital. Com Classe E2 de operação, a estação conta com 45 kW de potência no transmissor e uma incrível potência efetiva irradiada (ERP) de 181 kW, consolidando-se como uma das vozes mais potentes do rádio paulistano.

A sintonia da frequência de 77,1 MHz é possível por meio de receptores que cobrem a faixa estendida de FM. Modelos de rádio antigos ou de carros fabricados antes da regulamentação do FMe podem não captar o sinal abaixo de 87,3 MHz.

História

A Rádio Record é a emissora mais antiga em atividade no estado de São Paulo e uma das mais tradicionais do Brasil. A ata de constituição da então Rádio Sociedade Record foi assinada há quase 98 anos, em 2 de abril de 1928.

A sede e a estação de broadcasting foram instaladas no primeiro andar do sobrado nº 17 da Praça da República, esquina com a Rua Barão de Itapetininga, no centro da capital paulista. A emissora foi fundada pelo comerciante e advogado Álvaro Liberato de Macedo, proprietário da Casa Record, loja da Rua São Bento especializada em discos, rádios e vitrolas.

Anúncio da Casa Record, cujo proprietário fundou a Rádio Record.

A inauguração oficial da PRB-9 Rádio Record ocorreu em 23 de outubro de 1928, às 20h30. No entanto, a emissora não transmitia de forma regular, por falta de estrutura e até de interesse de seu proprietário. Até que, em 1931, Álvaro Liberato vendeu a emissora ao empresário e advogado Paulo Machado de Carvalho, em sociedade com o cunhado Pipa Amaral e o amigo Jorge Alves de Lima.

A nova fase teve início em 11 de junho de 1931, após uma grande reforma estrutural, potência de 500 watts e a criação de uma programação inovadora. Surge o slogan “A Voz de São Paulo”, que marcou época e ampliou significativamente a popularidade da estação, que logo se tornou a emissora-líder da Emissoras Unidas, um conjunto de estações adquiridas pela família Machado de Carvalho.

Sede da Rádio Record na Praça da República, onde foi fundada e funcionou por alguns anos.

Em 1934, a Record cresceu e seu sistema de transmissão encerrou as operações no prédio adaptado da Praça da República. Um novo e amplo parque de transmissão foi montado na Vila Helena, região do bairro de Moema, na Zona Sul, passando a operar com um transmissor de 20 kw. No ano seguinte, a sede da emissora também deixou a Praça da República e mudou-se para um edifício bem próximo, na Rua Conselheiro Crispiniano. 

Com programas idealizados por nomes como Blota Júnior e Otávio Gabus Mendes, além de espetáculos musicais com um elenco fixo numeroso, a Record conquistou e manteve a liderança de audiência em São Paulo durante as décadas de 1940 e 1950. Dessa fase nasce seu slogan mais emblemático: “Rádio Record, a Maior”.

Em 1946, a Rádio Record deu um salto técnico e ganhou um parque de transmissão mais moderno, com um potente transmissor de 50 kw, situado às margens da Rodovia Anchieta, em São Bernardo do Campo. Sua sede mudou-se para a Av. Miruna, bem próximo do Aeroporto de Congonhas, junto da TV Record. Nesta época foram inauguradas três estações de Ondas Curtas, levando o som da Record para todo o Brasil — e além.

A emissora voltou ao primeiro lugar de audiência nos anos 1970 e esteve entre as primeiras na década de 1980, consolidando-se com uma programação popular e comunicadores que se tornaram ícones: Zé Béttio, Silvio Santos, Gil Gomes, Eli Corrêa, entre outros.

Nesse período, o empresário e apresentador Silvio Santos tornou-se sócio da família Machado de Carvalho. O sinal da AM 1000 KHz passou a ser irradiado de um terreno próximo à Represa de Guarapiranga, no extremo sul da capital paulista. Em 1977, na frequência 89,7 MHz, surgia a FM Record, um projeto voltado ao público adulto, combinando música de perfil sofisticado.

Entretanto, uma crise financeira surgida no final dos anos 1980  levou à venda às emissoras de rádio e TV do grupo para a Igreja Universal do Reino de Deus, uma transação que foi concluída em março de 1990.

A nova administração da Rádio Record manteve a linha popular até 2001, quando promoveu uma reestruturação profunda: comunicadores foram dispensados e a grade passou a ser predominantemente religiosa. Apenas Paulinho Boa Pessoa e a equipe esportiva de Fiori Gigliotti permaneceram no ar.

A mudança reduziu significativamente a audiência, e em alguns horários a emissora funcionava apenas como retransmissora da Rádio São Paulo, do mesmo grupo.

A partir de 2004, a Record voltou gradualmente a adotar uma linha mais comercial. Em julho de 2006, a nova diretoria — Cássio Lima (geral) e Roberto Foster (comercial) — impulsionou a rádio à terceira colocação entre as mais populares da capital. Comunicadores conhecidos retornaram ou estrearam na casa, como Gil Gomes, Kaká Siqueira, Leão Lobo, Lilian Loy e João Ferreira, além de nomes do esporte como Juarez Soares e Paulo Morsa.

Foi implantado também um novo website, com transmissão da programação ao vivo pela internet.

Em 2009, as transmissões esportivas passaram a ser feitas pela equipe de Éder Luiz, em parceria com a Rede Transamérica. No mesmo ano, a rádio recuperou o slogan histórico “A Voz de São Paulo”, por meio do apresentador José Nello Marques. Ainda em 2009, o radialista Paulo Barboza estreou na emissora, vindo da Rádio Capital.

Em julho de 2011, a Record demitiu a maior parte de seus comunicadores e, em 5 de agosto daquele ano, a programação tradicional foi encerrada, passando a veicular essencialmente músicas e retransmissão da programação da Igreja Universal veiculada na Rádio São Paulo, Rede Aleluia e TV Universal.

A linha popular retornou gradualmente a partir de 2012, mais ainda com predominância musical. Em fevereiro de 2018, a emissora promoveu ajustes na grade matinal e diária.

A Record permaneceu sediada por alguns anos no prédio da TV Record, na Barra Funda. A programação manteve um formato híbrido de variedades, esporte, jornalismo e música popular. Hoje, seus estúdios estão em um prédio do Jardim Caravelas, distrito de Santo Amaro, na Zona Sul de São Paulo.

A programação da Rádio Record segue controlada pela Igreja Universal do Reino de Deus, mesclando seleções musicais populares, entretenimento e conteúdo religioso. Entre os destaques está o programa “Manhã Record No Ar”, apresentado por Léo Miranda.

Por Maurício Viel. Jornalista, escritor e historiador do rádio e da TV.

Comentários

  1. Pessoal do Blog:no momento que escrevo,a Rádio Capital AM está fora do ar.

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  2. Verdade! Ontem ela também estava fora, mas durante o dia tinha voltado. Vamos aguardar. Obrigado.

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    1. Quando as Rádios Cultura e Capital vão sair do ar no AM,igual a Record?Att.

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    2. Tomara que mantenham no AM. Um receptor de radio convencional de qualidade e com banda estendida no FM, ainda custa bem caro.

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