Artigo: Nos 75 anos da TV Tupi, um erro histórico precisa ser corrigido
Por Maurício Viel
18 de setembro de 2025 — Há exatos 75 anos, São Paulo assistia à estreia da primeira emissora de televisão do Brasil: a TV Tupi, Canal 3, do grupo Diários Associados. O momento marcou o início de uma nova era na comunicação nacional. No entanto, ao longo das últimas décadas, consolidou-se uma narrativa equivocada sobre essa data histórica: a de que o chefão Assis Chateaubriand e sua equipe teriam se esquecido de providenciar aparelhos de TV para que o público pudesse assistir à emissora desde sua transmissão inaugural.
Essa versão é frequentemente contada com tom anedótico em reportagens sobre os aniversários da inauguração da TV e até mesmo em livros, como se fosse um fato. Segundo ela, poucos dias antes da estreia, os responsáveis teriam percebido a ausência de televisores em São Paulo e, às pressas, recorreriam ao contrabando para salvar a estreia da televisão brasileira.
Com base na pesquisa que realizei para o livro “TV Tupi - Do Tamanho do Brasil”, escrito em parceria com o jornalista e historiador Elmo Francfort, afirmo que essa “trapalhada histórica” nunca aconteceu. Foi, na verdade, uma criação posterior, que buscou romantizar o início da TV no país.
Uma nova luz sobre os fatos
Pesquisas recentes e minuciosas em arquivos de jornais da época, como os dos “Associados” Diário da Noite e Diário de São Paulo, revelam que o planejamento da TV Tupi incluiu, desde o início, um acordo comercial com a indústria americana RCA-Victor. Ele previa o fornecimento dos equipamentos de captação, produção e transmissão do canal, além dos primeiros 100 receptores de TV.
A parceria envolveu também a distribuidora oficial da RCA no Brasil, a loja Cássio Muniz, que ficou responsável pela montagem e instalação dos aparelhos de demonstração. A própria data da estreia da TV Tupi foi definida em função da chegada e da instalação desses receptores em pontos estratégicos de São Paulo, além do abastecimento inicial do mercado.
Os primeiros 100 televisores chegaram à cidade no dia 21 de julho de 1950, transportados em aviões Constellation da Panair do Brasil. Em apenas quatro dias, os aparelhos já estavam instalados em bares e lojas, que passaram a exibir as transmissões experimentais do Canal 3 — fato confirmado por anúncio da Cássio Muniz, publicado no primeiro aniversário da emissora, em 1951 (foto abaixo).
Além disso, reportagens publicadas em jornais paulistanos comprovam que a importação dos televisores havia sido regulamentada meses antes da inauguração. A Carteira de Exportação e Importação do Banco do Brasil estabeleceu regras de preço e quantidade por fabricante. Três marcas — RCA, General Electric e Zenith — solicitaram a importação de 2.200 aparelhos cada, totalizando cerca de 6.600 unidades destinadas ao eixo Rio–São Paulo, a serem entregues gradualmente ao longo do segundo semestre de 1950.
A origem da confusão
Mas, afinal, de onde surgiu a ideia de que faltavam aparelhos? A explicação está em uma atitude inesperada — e típica — de Assis Chateaubriand. De última hora, ele decidiu televisionar em circuito interno as apresentações musicais do frei José Mojica, realizadas nos dias 4, 5, 7 e 11 de julho de 1950, na sede paulista do grupo, que ficava na Rua Sete de Abril, 230, no Centro.
Essas transmissões aconteceriam semanas antes da chegada oficial dos televisores. A ideia era exibir imagem e som no auditório, no hall do edifício e até em uma praça próxima. Para atender ao pedido emergencial, de fato foi necessário adquirir algumas poucas unidades de receptores de maneira informal — o que gerou relatos sobre contrabando em algumas biografias. Mas esse improviso não comprometeu em nada o cronograma original da inauguração do Canal 3, prevista (e cumprida) para setembro.
Na ocasião, técnicos da RCA e das Emissoras Associadas (Tupi-Difusora) montaram uma central provisória no segundo andar do prédio. Às 22h do dia 4 de julho de 1950, surgiu nas telas a imagem padrão da RCA-Victor, seguida do logotipo da emissora e da saudação histórica: “Esta é a PRF3-TV Tupi de São Paulo em sua primeira transmissão!”
Tenha sido ou não uma “loucura” de Chateaubriand, o público se acotovelou no hall e nas calçadas para ver as imagens. Foi uma revelação muito grande e o entusiasmo do público era visível.
Memória e responsabilidade histórica
Essa descoberta reforça a importância da pesquisa em fontes primárias, capaz de separar mitos da realidade. A televisão brasileira nasceu, sim, em meio a desafios técnicos e improvisos — mas não por descuido ou despreparo. O sucesso da estreia da TV Tupi, assistida por centenas de paulistanos em vitrines iluminadas, foi fruto de uma operação comercial coordenada e visionária.
Ainda no campo das narrativas criadas para contar a história do início da televisão brasileira, outros dois exemplos são bons de serem citados. Chateaubriand teria sido o responsável pela falha de uma das três câmeras que iriam televisionar o espetáculo noturno de inauguração. O feito teria acontecido após ele quebrar uma garrafa de champagne, em um ato simbólico de batismo da televisão. Outra "conversa" aponta que a equipe artística não havia pensado no que exibir no dia seguinte à inauguração. Balelas.
No ano em que celebramos os 75 anos da televisão no Brasil, revisitar essa história com rigor é uma forma de homenagear seus pioneiros — e reconhecer que, mesmo quando envolvida em versões pitorescas, a verdade histórica merece sempre o papel principal.
Para aprofundar o tema e descobrir todos os detalhes técnicos da montagem da TV Tupi, acesse gratuitamente o e-book “TV Tupi - Do Tamanho do Brasil”, de Maurício Viel e Elmo Francfort, publicado pela ABERT – Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão em 2020, com versão ampliada lançada em 2022. O endereço é memoria.abert.org.br/tv-tupi-do-tamanho-do-brasil-versao-ampliada-2022.



Fantástico. Parabéns pelo texto.
ResponderExcluirGrande texto. Mauricio e Elmo, vocês são craques.
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